terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Violinos vida a fora, noite a dentro...

Já perdi a conta de quantas vezes nasci cansada, chateada, puta da cara e de saco cheio. Foram muitas vidas, muitas mortes, muitas indas e vindas. Hoje já não me canso mais. Bem dizia minha vó que gato escaldado tem medo de água fria. Acho que já não mais me impressiono com qualquer cousa. Já não me apego assim tão fácil a qualquer pessoa. Um sorriso pra chamar minha atenção tem que ser dos mais fodásticos. Agora minhas perspectivas já não são mais as mesmas, os sonhos, bem, esses confesso não mudaram muito.A vida prossegue de um jeito estranhamente comum, normal e corriqueiro. Já não enxergo as ordinárias cousas simplórias de sempre. Já não passo horas olhando o por do sol. Já não digo que amo com tamanha facilidade e finalmente já aprendi que amigos não são fáceis de encontrar, por isso há de se dar valor aos que se tem, e há também de se notar que é impossível substituir alguém. Aprendi que se a pessoa não merece com que nos apeguemos a ela e deixa isso claro, por Odim, não devemos nos apegar jamais. Agora não sou mais assim. Quem sabe esta noite eu tenha virado adulta? HG diz que crescemos e voltamos a infância muitas vezes na mesma vida. Tenho total certeza que Albert Caus teria uma resposta certa para as minhas questões. Estou certa de que ele entenderia essas crises existenciais, de fato ele entendia muito sobre cousas existenciais. Que o cara era foda não tenho dúvida alguma. E antes que a pergunta seja feita, respondo sim, digo sim, um existencialista fez a minha cabeça. E sim esse cara é Camus. Certamente hoje envelheci dez anos ou mais...Passei o dia todo envelhecendo e amadurecendo. Peguei ele, que há muito não pegava. Limpei, afinei, ouvi, e dei conta que sem a verdadeira razão pela qual fazemos as cousas sejam elas quais forem, não tem graça. Saudade, vontade, piedade...Espero que amanhã eu torne a nascer, e possa assim desfrutar da infância novamente. Apreciar um por de sol, me encantar, confiar e me apegar a pessoas que não merecem...Pra que isso me faça crescer novamente e nascer e blá, blá, blá o eterno retorno retornando aí...                             



Foto: Minha mamãe Fátinha;)

Jeco ,réquiem para nossos verões...

Hoje assim, do nada e totalmente sem saber alguém me fez lembrar... Sabe quando a gente coloca um trecho de uma música? Bem, quando fazemos isso não sabemos o que podemos causar. Ao ver um trecho desses lembrei na hora do meu herói. Do meu amor. Dizem que deus existe. Muito sádico deve ser esse senhor então. Levou de mim o herói da minha infância. Criança sempre tem assim um exemplo, um amor, uma rocha. Comigo não foi diferente. Ele morava longe e parecia me amar tanto quanto eu o amava. De fato ele me amava muito. Vinha sempre me ver, com seu melhor sorriso, sempre de bom humor, sempre feliz em me ver. Nossa, será que é possível amar assim tanto alguém que já era? Não consigo sentir que ele não vem mais. Parece que ele anda ocupado trabalhando e daqui a pouco vem aqui, buzinando sua Brasilia azul, com sua infame e totalmente provocativa camisa do grêmio. Com suas músicas bregas, gritando na frente de casa que tem saudades minha. Dizendo que me ama e que quer uma cerveja. Dizendo que não importa o tempo que passou, ainda somos os mesmos que brincavam na rua, que jogavam taco, quebravam os vidros dos vizinhos, jogavam chinelos em pátios...Sinto que ele vai chegar pedindo   pra sair e comer bauru de picanha. Vai chegar sorrindo dizendo que somos iguais e precisamos sair. Que a nossa música é a melhor, incomparável e nunca ninguém fará música como a gente. Concordando comigo que o verão é um inferno.(Confesso que viveria mil verões, só verões se fosse pra ficar com ele novamente). Até que os verões que vivemos foram maravilhosos. Acampávamos, aprontávamos...Dormíamos, cantávamos, certamente eu era mais feliz na sua presença, esperava ansiosa pelos verões, pelas férias que sempre passávamos juntos. Saudade é pouco, amor é pouco, não sei como poderia dizer o quanto ainda o amo, e não sei se tive oportunidade pra dizer o quão importante ele foi na minha vida. Um brinde ao Jeco, meu primo, meu herói, meu amor, esse é eterno, puro e verdadeiro. Um brinde ao cara que morreu sem nunca ter alterado a voz pra falar comigo, que passou a vida sem brigar e sei o quanto isso é difícil se tratando de mim...


segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

E mais uma vez a ampulheta de Nietzsche vira, vira e vira...

Hoje, com todo esse calor infernal pensei aff! É foda mesmo.Lembrei que ano passado foi a mesma cousa no verão, e no retrasado, e no anterior, anterior., anterior, anterior... Sempre, sempre e sempre. A roda não pára de girar, a vida é sempre a mesma vida. A gente cresce, faz aniversários,engorda, emagrece, corta os cabelos, casa, separa, volta a casar e possivelmente volta a separar... É sempre igual. A gente troca de roupa, troca de casa, troca de cidade, até de continente, e sempre prosseguimos o mesmo ciclo do inferno. Tudo sempre tão pateticamente igual, absurdamente enfadonho e chato. Quem sabe certo mesmo estava  André Gorz  que foi embora antes do final. Mas se  Nietzshe estava certo com o seu temido e implacável retorno, ele ainda irá embora do final muitas e muitas vezes...Todos iremos repetidas vezes reviver nossas angústias, nossas derrotas e nossas vitórias.Temo pela resposta que eu daria a tal demônio, uma vez que não vivi nada tão esplendorosamente grandioso a ponto de querer reviver minhas amarguras só pra juntamente reviver tal fato inestimavelmente valioso. Triste de mim. Creio que todos deveríamos ter uma cousa a nos apegar...Enquanto isso, o demônio, aquele mesmo que se esgueira e traz consigo o tempo sem tempo e o tempo de todos os tempos segue errando por aí, carregando o fardo e a benção de se apresentar e se despedir de nós repetidas e repetidas vezes. Também ele deve se sentir mal com sua árdua e enfadonha tarefa. Mas é assim que a cousa segue e prosseguimos vida afora noite adentro  na espera pelo verão seguinte que obviamente será tão infernal quanto o passado.

sábado, 1 de dezembro de 2012

Mapeando meu desalinho 3

Como é longa a volta pra casa. Parece que não se chega nunca. O calor voltara e a sensação de saber que senti inveja, de perceber que ser clichê é um saco, de me dar de conta que sempre quando agente se acha, agente se fode. Perceber que agente é ou faz aquelas cousas que condena é triste e repugnante. Certo que Nietzsche teria uma boa explicação para isso. E certamente Jung ou algum autor da música folk teriam a solução para isso. Mas não quero, prefiro eu mesma me assustar com os fantasmas das minhas habitantes, dançar com meus demônios sob a luz do luar. Prefiro tentar lidar com isso e me fuder sozinha, não quero ajuda de profissionais. Nesta hora vejo dois caras sem camisa,deveriam estar celebrando seu próprio desalinho. Quem sabe o vento, aquele que aparentemente soprara só pra mim os atingira também. Quem sabe esse era o normal deles. Fato é que estes bebiam uma bud e isso me fez lembrar o Luciano(mais uma dessas pessoas pra lá de especiais que a vida coloca na nossa estrada). O Luciano sempre bebe bud e só bud, então virou estigma. Se vejo uma bud, lembro dele, inevitável clichê que faz parte de mim, de todas de mim. Entra uma moça e senta do meu lado, puxa papo, fúteis papos de mulheres, sempre bom falar de cabelo, esmaltes , roupas e sapatos, sou mulher e não fujo a regra básica do quanto mais vestidos e sapatos melhor. Chego em casa leve a pesar dos pesares e os pesares de hoje foram pesados. Quando a mãe pergunta sobre como foi o dia respondo: Preciso comprar um telescópio.

Mapeando meu desalinho 2

Durante a volta pra casa confesso que levemente decepcionada com o fato de ter perdido horas continuei divagando , conjecturando e mapeando meus acasos. Percebi que durante meu primeiro mapeamento sublinhei algumas linhas. O mais estranho é que se hoje eu fosse sublinhar não seriam as mesmas. Certo que não era a mesma Shana que estava lendo.O fato de se possuir muitas dentro de si as vezes faz com que agente acabe se perdendo...Gosto disso, conhecer algumas de mim, me despedir de outras, chamar pra que venham novas, confesso que este é um jogo interessante.Se Vivaldi me conhecesse talvez teria feito quatro estações para as muitas de mim.Talvez Norman Lebrech tenha uma explicação para isso. Certo que ele teria, e uma tese completa, com todos os adendo necessários. Estão aí os profissionais fazendo  o que deve ser feito, errando nas suas malfadadas analogias e ainda assim sendo 'os caras'. Tem que trabalhar muito pra ser um cara.Olho pela janela do ônibus que a duras pencas tenta de toda forma resistir a idade e me levar sã e salva pra casa. Vejo belas árvores, pensei que as gostaria de ver de cima, sempre prefiro as copas aos troncos. Baixo um pouco a vista e vejo um possível morador de rua pedindo comida a uma mulher. Junto dele haviam muitas cousas, suas cousas, objetos pessoais e o que mais era importante pra ele. Dentre muitas cousas notei que ele carregava consigo um Joystick. Rapidamente pensei em saltar do buss e ir negociar com ele. Comida tenho em casa, o joystick que quero não. Mas nessa hora me liguei em duas cousas, primeira, não carrego comida comigo, segunda, o ônibus já estava bastante longe do cara. E ele tinha o joy, eu não.Notei que uma das fadinhas de momentos antes era minha colega de viagem,já estava com a maquiagem borrada, mas ainda assim era uma bela fadinha. Paramos em frente a uma universidade particular que fica no meio do caminho entre a FURG e a minha casa. Todos os estudantes ali na frente, vivendo a expectativa das férias. E eu não, entraremos janeiro a dentro verão afora em aula por conta da greve. A fada desceu ali, entrou no prédio da universidade.E senti algo bem estranho, ruim. Eu, que secretamente sempre me julguei superior  por estudar em uma federal estava agora com inveja de quem estuda na particular. E eles também tinham uma fada. Isso é bom, agente nunca é melhor, mesmo que pense ser, choque de realidade mais uma vez aí, mostrando que não existe superioridade, bem feito pra mim,arrogante, prepotente, estuda no verão.

Mapeando meu desalinho

Dia ruim o de ontem. Não, não ruim, ao menos não de todo. Trabalho normal, noite anterior normal, e no fundo no fundo dia normal. Ao sair lá de onde eu ganho o pão e não como a carne, pego os sinuosos caminhos que me levam até a universidade. Lugar esse que muito embora já não me encha mais os olhos ainda carrega consigo um certo brilho, cousa que vai além da estrutura física local. Bem, difícil foi chegar até lá. Uma vez que depender do transporte público nesta bela cidade de poético nada possui é realmente difícil chegar em qualquer lugar. Não existe pontualidade e poucas cousas me deixam tão demasiadamente desapontada comigo mesma que a falta de pontualidade.Talvez um dia eu volte a tocar nesse assunto, hoje não mais. Depois de muito procurar a pessoa que eu iria encontrar(não se tratava de encontro romântico),achei melhor sentar, ali em uma sombra no meio do caminho. Como quem estivesse em uma encruzilhada, ponto estratégico de onde se vê quase todos os locais mais frequentados, onde todos inevitavelmente acabarão passando. Então olhei, mirei, calculei e achei um banco, a sobra de uma enorme ávrore, onde o calor não era capaz de me alcançar de onde eu teria privilegiada visão das pessoas, procurando encontrar aquela com quem gostaria de falar e desfrutando de alguns momentos agradáveis em um local fresquinho depois de ter passado horas de calor infernal. Como os prazeres podem ser simples quando se passou por momentos relativamente ruins horas antes...Vi passar muita gente, gente legal, gente mais ou menos e gente bem menos.Encontrei quem ha muito já não via,e quem vejo diariamente. Lá pelas tantas a espera estava ficando enfadonha, saquei da mochila os meus mapas do acaso, que tem me acompanhado muito nos últimos tempos. Fiquei ali mapeando os meus próprios acasos, casos e descasos. A esta altura já não estava mais calor, na verdade o vento estava tirando uma com a minha cara, ventava muito, meus cabelos voavam loucamente e pareceram criar vida própria. Pensei que uma vez que estava ventando em todos não somente em mim não faria diferença estar totalmente descabelada , afinal, todos estariam como eu. Deixei que o vento e meus cabelo fizessem o que bem quisessem. Voltei aos meus mapas, aos meus mundos, devo ter ficado tanto tempo perdida na esquina que fica entre as páginas do livro e os labirintos da minha mente que quando levantei os olhos  percebo que tem algo estranho acontecendo. Olho então para frente e vejo, ali, diante dos meus olhos, uma enorme convenção de fadas. Depois vejo que não haviam somente fadas, haviam também piratas, borboletas, lindinhas eram as borboletas, duendes, uma abelha. Percebi que a abelha estava sem suas asas, depois vi que sua suposta mãe as carregava na mão. E dentre todos esses seres místicos, míticos e lindos ali estava ela, totalmente fora de contexto(ao menos na minha cabeça) uma pequena e saltitante Emília, com seus cabelos coloridos. Ela não sentia-se deslocada, pulava e girava como as fadas e os piratas. Fiquei matutando na minha cebecinha o que faziam fadas e piratas em uma mesma apresentação, depois pensei que poderiam haver mais de uma apresentação, depois pensei, deus como sou burra, J.M.Barrie soube muito bem mesclar fadas e piratas, mas também, o cara era foda. E mais um tempo depois pensei, e a Emília? Monteiro Lobato saberia responder. Fiquei viajando tentando imaginar uma possível ligação entre J.M.Barrie e Monteiro Lobato, claro que fiz isso pensando em um tempo sem tempo, os dois convivendo, sendo contemporâneos e conterrâneos. Ahh, como delirei.Foi mais ou menos nessa hora que dei de conta que já não adiantava esperar. E pra variar meu celular, amado celular me abandonou, sou muito trolada por ele. Então levantei e me direcionei até a o centro de tudo. Lá chegando encontrei a Dani (uma dessas pessoas pra lá de  especiais que a vida acaba colocando nos nossos caminhos). Devo ter assustado a guria, por que sua primeira reação ao me ver é perguntar o motivo de eu estar com cabelos de louca. Tive que rir. O vento bagunçara meu cabelo, permiti por achar que se ventava em mim ventava em todos. Engano meu.acho que de fato o vento era cousa somente minha, pois olhei em volta e mais ninguém compartilhava o meu desalinho.Foi nessa hora que pensei, hora de ir pra casa.