terça-feira, 6 de março de 2012

De próprio punho parte III



Estou certa que Jane Austen entenderia completamente o que aconteceu durante aqueles séculos 


Foi em uma daquelas corriqueiras noites de inverno que o viu pela primeira vez. O ambiente era o mesmo de sempre, alegre, festivo... Não se recorda a música que tocava, mas havia alguma, as vozes eram altas e descontraídas por vezes excedidas até, mas afinal aquele era o lugar dos excessos, da descontração, da catarse... Não percebeu de imediato, mas naquela noite havia algo diferente no ar e nada tinha a ver com o lugar uma vez que estava tudo normal como sempre na sua mais perfeita desordem. As paredes de um amarelo vulgar, as mesas dispostas de maneira irregular cheias de histórias eletrizantes, a cadeiras ocupadas por mentes em desalinho... Aliás o desalinho impera neste caos tão aconchegante. Mas o que havia de diferente estava no ar, pairava sobre as suas cabeças desajustadas e demasiadamente eufóricas, a histeria era levemente maior naquela noite, havia a boa e velha tensão sexual correndo solta sob seu pés calçados com sapatos confortáveis e na sua maioria já bem surrados. E no meio daquela overdose de informações, de gente, música, burburinho e sentimentos misturados ela pára, sente um calor na altura da nuca, não era nada, estranho, mas esqueçe por estar também no clima da euforia e levemente envolta na névoa colorida e fantasiosa sensação causada pelo vinho. Em um momento totalmente alheatório ela o vê. Não sabendo bem o que aconteceu, mas o coração disparou, as pernas tremeram, o visão ficou turva e algo mudou. A música parecia ter parado, as pessoas que estavam em volta perderam a cor, o brilho, como se estivessem em um quadro e fossem apenas a figura de segundo plano. E ele, gozando da sua completa normalidade. Era demasiadamente comum para me causar tamanha reação, justo quando já acreditava ser imune (estava sendo até então). Tenta argumentar consigo mesma, mas não havia palavra que a convencesse de que aquele não era um enviado dos deuses . Dizia alguma outra que há dentro dela, alguma que tenta se apoiar na razão, esta  outra que lhe   habita dizia que ele era comum, e a perguntava o que ela havia visto ali que poderia meramente ser remetido a um presente dos deuses, ela não sabia se rebatia os argumentos daquela chata que se dizia ser alguma de si ou se continuava a flutuar no seu olhar. Dizia para a outra de si que era justamente a normalidade dele que a encantara, era o seu olhar tão proeminente marcado, o sorriso largo, uma boca com linhas suavemente acentuadas, a barba por fazer exatamente como lhe agrada, o ar displicente, uma certa arrogância saudável, a confiança da mirada, tudo ali era convidativo, muito embora fosse mais novo do que aqueles que costumavam lhe atrair. Seu ar despojado e sua fisionomia estudantil eram por demais encantadoras. Nunca soube  explicar bem o por que foi tão brutalmente fisgada por alguém tão fora dos padrões que costumam lhe excitar. O que havia ali naquele jovem era algo especial, difícil de explicar, quem sabe algo entre o tremendamente comum, beirando a invisibilidade e a impetuosa elegância inglesa. Sustentou o olhar por alguns segundos, segundos esses que pareceram séculos, talvez milênios. Estava certa que Jane Austen entenderia completamente o que acontecera durante aqueles séculos em que seus olhares se cruzaram. Depois disfarçou, era forte e destruidora de corações, isso não acontecia com gente como ela, não de bambear as pernas e tontear. Entregou-se novamente a sua própria histeria digna do lugar, mas algo dentro dela havia se quebrado e era certo que nunca mais as peças se encachariam. Mas sorriu, cantou,brindou, dançou  e bebeu, tomando parte na descompostura local. Mas não pode esquecer sequer por um momento aquele jovem tão marcante e ao mesmo tempo tão comum que pela primeira vez vira naquele mundo a parte. Escorregou para uma cadeira e ali afundou-se não aguentando tanta informação, ele não saíra dali e ela não compreendia sua presença. Olhou para o céu a procura de sei lá, talvez um sinal, aqueles só para iniciados, nada viu além da lua, linda, vigorosa e majestosa na sua resplandecência roubada. Refletiu um pouco abstraindo o barulho de gente feliz e alegre por efeito do álcool.  Só poderia estar sob o efeito de algum feitiço, não havia bebido tanto para sentir aquele turbilhão todo de enigmas e sentimentos confusos.  Poderia ser um delírio e arriscou um novo olhar,  o viu novamente, ali dentro de um jeans tradicional típico dos frequentadores locais, uma jaqueta de couro, não se destacaria na multidão caso as outras pessoas não estivesse no plano secundário da sua visão.                                                                            



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