terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

De próprio punho,Parte I





Águas profundas

Algumas vezes é preciso ir ao fundo do poço. Em dados momentos (aqueles em que os Deuses vão embora).É necessário estender a mão e se entregar aos soturnos braços da morte. Permitir por ela ser levada, e dessa forma, sem questionar o destino, sem entoar palavra, sem fazer movimentos bruscos, ir. Ir com a imperecível  senhora impecavelmente vestida até as águas mais profundas. Lá, nos recôncavos do nosso próprio ser, no âmago da amargura onde a luz não chega e abismos secretos são revelados a todo instante. Lá onde repousam, mas também caçam os seres mais macabros, raros e desconhecidos pela ciência, alguns dormem, outros tem aparência faminta e assustadora, todos hostis. Se ouve tétricas melodias. É preciso permanecer, mergulhar nestas tempestuosas águas, dançar por entre as medonhas criaturas. Neste momento, sofrer. Sofrer como nunca, chorar, gritar, reviver os piores momentos, desesperar... Buscar ar em uma corrida frenética pela sobrevivência. E quando não houver mais nada para ser revivido, quando as amarguras forem demasiadamente antigas e já superadas, quando já se sofreu novamente tudo que havia nas profundezas  aí, finalmente acordar. Dizer bom dia pra vida e recomeçar, superando ou não, porém nunca esquecendo do fatídico mergulho nas próprias águas profundas, revoltas e profanas...                                                               



2 comentários:

Sandra disse...

Fatídico mergulho nas águas profundas, revoltas e profanas.
Que lindo Shaninha, que lindo!

Guga disse...

Eu to agora nas minhas águas profundas, adoro te ler...